Resumos

O tenso diálogo entre Bakhtin e Rickert: 

valor, validade e participação

 

Maria Inês Batista Campos Noel Ribeiro (USP)

maricamp@usp.br

 

Resumo: Nesta comunicação, o objetivo é discutir as relações entre a concepção de valor desenvolvida por Mikhail Bakhtin e a filosofia dos valores de Heinrich Rickert (1863-1936), representante do neokantismo da Escola de Baden. Em Para uma filosofia do ato responsável, Bakhtin cita diretamente Der Gegenstand der Erkenntnis [O objeto do conhecimento], cuja primeira edição foi publicada em 1892, e explicita sua crítica à concepção de validade teórica dissociada do acontecimento concreto do ato. A “veridicidade teórica” considerada em si mesma torna-se, para Bakhtin, insuficiente para dar conta da responsabilidade, da singularidade e do tom valorativo próprios do agir concreto. A presente comunicação, porém, detém-se no ensaio de Rickert Le système des valeurs, publicado em 1913 na revista Logos, periódico internacional que circulava em edições alemã e russa, circunstância relevante para compreender a difusão do neokantismo no ambiente intelectual russo de formação de Bakhtin. Nesse ensaio, Rickert procura conciliar o caráter aberto e histórico da vida cultural com princípios formais supra-históricos de validade, construindo um sistema de valores que, sem eliminar a historicidade dos bens culturais, ofereça uma base para a interpretação do sentido da vida e para a reflexão filosófica sobre as ciências da cultura (Kulturwissenschaften). Metodologicamente, propõe-se uma leitura comparativa entre a sistematização rickertiana da concepção de valor e a crítica bakhtiniana à separação entre validade teórica e ato responsável. A análise mostra que Rickert distingue valor, bem e valoração e, embora reconheça o sujeito e a tomada de posição valorativa, preserva uma hierarquia formal supra-histórica. Bakhtin, por sua vez, desloca a problemática para a participação singular do sujeito no acontecimento do existir. Como resultado, sustenta-se que o diálogo entre ambos se constrói na tensão entre validade e participação, isto é, entre o valor formalmente válido e o valor concretamente assumido no ato responsável.

BAKHTIN, M.M. Para uma filosofia do ato responsável. Trad. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro &João Editores, 2010 [1924].

RICKERT, H. Les système des valeurs et autres articles. Preséntation, traduction et notes par Julien Farges. Paris:Vrin, 2007.

 

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“Eu” e “tu” como modelo originário da língua:

dualidade e unidade na reflexão linguística de Wilhelm von Humboldt

 

Juliana F. Martone (USP)

juliferraci@gmail.com

 

Resumo: A apresentação expõe a tese de Wilhelm von Humboldt, segundo a qual o modelo originário de todas as línguas (Urtypus aller Sprachen) se funda num diálogo recíproco (Wechselrede) entre um falante e um ouvinte, entre um eu e um tu. Essa estrutura se manifesta na relação entre eu e não-eu, na qual Humboldt distingue duas formas: tu e ele. Ambos são não-eu, porém de maneiras diferentes. Enquanto o o tu é constituído pela espontaneidade da escolha e pertence, com o eu, à esfera da atuação comum e recíproca, o ele permanece na esfera geral dos seres e é associado à percepção exterior. O ensaio de 1827 “Sobre o dual” é particularmente relevante para entender como essa forma concreta de “coletivo-singular” exprime uma unidade que compartilha simultaneamente a natureza do singular e do plural como verdadeira totalidade, isto é, como uma unidade que não suprime a diferença e pode ser associada à conexão entre eu e tu. Por fim, a exposição pretende mostrar, no texto de 1829 “Sobre o parentesco dos advérbios de lugar e dos pronomes em algumas línguas”, que o modelo originário da língua não constitui, para Humboldt, uma forma abstrata e independente das línguas particulares, mas só se realiza nas diferentes formas históricas pelas quais as línguas organizam a interlocução, o sistema pronominal, as relações espaciais e a expressão da dualidade.

 

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Os fundamentos antropológicos da filosofia moral de Mikhail M. Bakhtin em “Por uma filosofia do ato”

 

Fábio Luiz de Castro Dias (USP – FAPESP)

castrodias.f.l@usp.br

 

Resumo: Em minha comunicação, pretendo discorrer sobre os fundamentos antropológicos da filosofia moral desenvolvida por Mikhail M. Bakhtin (Бахтин, 2003 [1986]) em “Por uma filosofia do ato”, considerando a antropologia filosófica como dimensão teoricamente determinante de sua reflexão moral, cujos conceitos cardeais são o de ato, o de responsabilidade, entre outros. Parto da predição segundo a que as concepções morais apresentadas em tal obra por M. M. Bakhtin se forjam a partir de uma determinada ideia basilar e vetorial do ente humano, por ele pressupostamente visto como sujeito participativamente responsável a partir da unicidade e da irrepetibilidade de seu lugar no Ser em sua eventicidade e em sua transcursividade (historicidade), cuja posição é inelutavelmente indissociável da alteridade que ele institui com o outro e com o mundo. A partir daí, o meu debate se concentrará na maneira pela que M. M. Bakhtin compreende a condição necessária e universalmente histórica do ente humano a partir de sua participatividade única e indelegável no Ser enquanto evento. Por meio do quadro proposto, evidenciarei as inter-relações entre conceitos fundamentais da sua antropologia filosófica, muitos ligado à predicação direta ou indireta da condição do sujeito histórico, tais como o de unicidade, o de participatividade, o de arquitetônica etc. Ao mesmo tempo, procurarei mostrar como esses conceitos acham-se ligados na motivação de categorias morais importantes de M. M. Bakhtin, como a de não-álibi, a de responsabilidade e a de dever. Buscarei, portanto, demonstrar como as ideias antropológicas de M. M. Bakhtin fornecem uma sustentação imprescindível à filosofia moral que se expressa em Por uma filosofia do ato. 

БАХТИН, М. К философии поступка. In: БАХТИН, М. Собрание сочинений – 1: философская эстетика 1920-х годов. Moscou: Языки Славянской культуры, 2003 [1986], p. 7-69.

 

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A arquitetônica da narrativa em “Sequência”, de Guimarães Rosa à luz da ação determinante dos cronotopos da estrada, da aventura e do limiar nas posições axiológicas do eu e do outro

 

Edson Nascimento Campos (FALE-UFMG)

Vânia Lúcia Menezes Torga (PPGL-UESC/Diálogo-USP)

vltorga@uol.com.br 

 

Resumo: A análise do conto “Sequência”, integrante de Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, se dá a partir da seguinte inquietação: como os cronotopos da estrada, da aventura e do limiar organizam, dialogicamente, a constituição recíproca, especular e não coincidente entre eu e o outro, em “Sequência”, compreendidos como posições axiológicas constituídas no acontecimento singular da arquitetônica da narrativa. Nosso objetivo é investigar a articulação entre tais cronotopos que organizam a narrativa num movimento dialógico e suas relações entre identidade e alteridade, compreendidas como posições axiológicas relacionais, não coincidentes. Essa análise está sustentada na obra “Por uma filosofia do ato” de Bakhtin ([1921],no prelo) na concepção de cronotopo, entendendo o tempo e espaço como formas estético-dialógicas em que se concretizam tais posições relacionais entre sujeitos sócio-historicamente constituídos. Evidencia-se aqui que os cronotopos, em “Sequência”, não são cenários, mas são o lugar-tempo do deslocamento, do encontro e da transformação das personagens - a vaquinha, o filho e a filha dos fazendeiros. Ao se articular tais movimentos com o cronotopo da aventura, inaugura-se a experiência de imprevisibilidade das personagens, evidenciando o confronto entre identidade e alteridade (ou entre eu e outro). O cronotopo do limiar, por sua vez, condensa os momentos de encontro, de passagem, de crise, de mudança de vida, em que as personagens se confrontam com os valores axiológicos que tensionam suas posições de identidade. Tal processo se dá na e pela linguagem como lugar de reflexão e refração das relações entre consciências, em movimento constante das refigurações identitárias. Conclui-se, portanto, que a interação entre os cronotopos, articulados numa determinada “sequência”, produz uma arquitetônica narrativa, como princípio epistemológico fundante em que se evidencia que os sentidos se manifestam na articulação indissociável entre espaço, tempo, linguagem e responsabilidade ética cuja inter-relação constrói o dialogismo vivo como dimensão constitutiva da existência humana na obra roseana. 

 

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A imagem do Brasil na literatura soviética

 

Ekaterina Vólkova Américo (UFF)

katia-v@yandex.ru

 

Resumo: Tomando como ponto de partida o conceito de imagem, muito presente na crítica literária russa e soviética e revisitado por Mikhail Bakhtin em Para uma filosofia do ato (1918-1924), pretendo abordar as representações do Brasil na literatura soviética. A imagem do Brasil perpassa diversas obras literárias do período soviético. Escritas por diferentes autores e em momentos distintos, essas obras revelam certa unidade semântica no que tange à representação do Brasil como um lugar mágico que se assemelha a um cenário tradicional dos contos de magia.  Segundo o filósofo russo, no mundo da visão estética, a imagem resulta da objetivação do acontecimento único da vida, que se dá a partir do lugar único do autor-contemplador situado fora da arquitetônica estética (extralocalizado), e da sua relação com o outro valorativamente afirmado. Retomando as reflexões de Bakhtin, é possível dizer que a representação do Brasil na literatura soviética refletiu tanto o imaginário exotizante sobre o outro, quanto um olhar crítico sobre o próprio contexto russo e/ou soviético. 

 

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"O mundo é grande e pequeno":

Antígona e "Nossa mãe" drummondiniana, emparedadas entre o ato ético-responsivo e a ética do desejo

 

Márcia Maesso (PPGPsiCC-UnB-DF)

Roberto Medina (PPGPsiCC-UnB-DF)

pprof.medina@gmail.com

 

Resumo: O mundo é recoberto por vozes individuais e coletivas, sendo que o ser-evento também está inserido numa esfera arqueológica de dizeres. Logo, dizer é dizer-se em ato/atividade. A noção de sujeito é sempre um constructo inacabado na arquitetônica vital, singular e irrepetível em determinada arena entre o dizível e o possível. Nessa perspectiva, tensionando a responsibilidade, o não álibi e o lugar único na existência, os laços sociais se pluralizam naquilo que nos torna seres faltantes e desejantes frente a avanços e recuos no inacabamento da própria vida, ou seja, estabelece-se uma ética do desejo. Ensina Bakhtin que a responsibilidade, o ato e o evento fundamentam sua reflexão estética e moral, como fenomenologia do ato, diferindo o mundo da ação e o mundo da cultura. O ato não é a ação de um sujeito, mas potência actante; tal sujeito amalgamador de ações e pensamentos, partícipes do evento do ser, sendo o desvelar e o vir à luz do ato por que nós nos realizamos incessantemente entre a cultura e a experiência vivida. Assim, a articulação entre o dizer-se participante e não indiferente e a ética da psicanálise envolve o real como orientação; por conseguinte, permite problematizar o ideal que incide na valorização social da obra de arte e na proposta de um modelo clínico, ético e estético. Nessa articulação, a partir de Bakhtin, Lacan e Freud, pretende-se retornar, ativamente, à concepção sobre a sublimação (criação artística) como destino da pulsão, incluindo a corporeidade, o desejo, a fantasia e o vazio. Ecoa-se “Agiste conforme teu desejo?” na experiência trágica da vida em Antígona, de Sófocles, e em Caso do vestido, de Drummond. Valora-se que “o mundo é grande e pequeno” no ato psicanalítico, ao se pressupor que o ato trágico como o ato analítico emparedam o sujeito na posição de resto, numa emergência de erotismo transgressor de novas possibilidades frente aos discursos autoritários.

 

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A divulgação científica brasileira no século XX como ato responsável: 

uma leitura bakhtiniana

 

Urbano Cavalcante Filho (IFBA-Campus Ilhéus/PPGL-UESC/Diálogo-USP/CNPq)

urbano@ifba.edu.br

 

Resumo: Este trabalho resulta de um desdobramento de pesquisas que venho realizando sobre o discurso da divulgação científica (DC) no Brasil. Em investigação anterior, dedicada às Conferências Populares da Glória, procurei compreender a arquitetônica da divulgação científica oitocentista, considerando as condições históricas e discursivas em que a ciência passava a ocupar determinados espaços da vida social brasileira. Se, no século XIX, essa divulgação se fazia, em grande medida, por meio de conferências e preleções públicas, no século seguinte, com a emergência e a consolidação dos meios de comunicação de massa, observamos mudanças significativas nas formas de circulação e apropriação social do conhecimento científico. É justamente essa passagem que me interessa investigar à luz de Para uma filosofia do ato (Bakhtin, 2010). Mais do que acompanhar a mudança dos suportes, meu interesse é compreender o que acontece com o conhecimento científico quando ele deixa o espaço mais restrito da produção especializada e se inscreve no mundo da vida por meio dos jornais, revistas, rádio e televisão. Experiências presentes em veículos como O Globo e O Cruzeiro, em emissoras como Roquette-Pinto e Rádio MEC e, posteriormente, em programas como os da TV Cultura e o Globo Repórter, constituem lugares privilegiados para observar essa transformação. A leitura que estou tentando empreender da DC como ato responsável permite deslocar o olhar da simples transmissão de conhecimentos para compreendê-la como prática situada na existência. A crítica bakhtiniana ao teorecismo coloca em questão a separação entre conhecimento abstrato e o mundo concreto em que os sujeitos vivem e agem. Divulgar ciência implica, portanto, assumir uma posição diante de determinado contexto histórico, social e cultural, envolvendo valores, escolhas e responsabilidades. Metodologicamente, assumimos uma abordagem filosófico-enunciativa e partimos da hipótese de que a DC brasileira no século XX não representa apenas a ampliação da circulação da ciência, mas uma transformação na própria relação entre conhecimento, sociedade e existência.

 

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A criação como ato: Tarsila do Amaral em diálogo com Mikhail Bakhtin

 

Alan Silus (UEMS/UCDB/Campo Grande/PPGDL/ UCDB)

allansilus@uems.br

 

Resumo: A proposta deste trabalho consiste na busca de uma aproximação entre a trajetória de Tarsila do Amaral (1886-1973) e os escritos de Mikhail Bakhtin (1895-1975) em Para uma Filosofia do Ato (Responsável) a partir das noções de ato responsável, singularidade, participação e não-álibi do Ser. Partindo da ideia de mundo da cultura e mundo da vida, busca-se refletir sobre a produção de Tarsila não como uma transposição experimental ou de seu momento histórico, mas como um processo criativo situado, feito por escolhas estéticas responsáveis e singulares no mundo. Para demonstrar essas relações, partiremos das fases de pintura Pau-Brasil e Social, idealizadas por ela, e tomaremos como corpus algumas telas como Abaporu (1928), Antropofagia (1929) e Operários (1933) como ponto para pensarmos a criação artística como ação que ultrapassa seu acontecimento originário e integra novas relações culturais e valorativas. Ressaltamos ainda que não se pretende fazer uso das categorias bakhtinianas como instrumento para explicar as obras, mas para estabelecer diálogos entre filosofia, arte e resistência. Por fim, consideramos que a criação artística enquanto ato situado e irrepetível faz com que o sujeito participe do mundo e o responda de seu lugar insubstituível, de suas formações históricas, culturais e sociais que atravessam sua (re)existência.

 

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Que significa elaborar um ato responsável na pesquisa sobre o ciberespaço contemporâneo?

 

Arthur Ribeiro Costa e Silva (UEA)

arces.dla26@uea.edu.br

 

Resumo: A partir do trabalho filosófico sobre o ato responsável empreendido por Mikhail Bakhtin e de síntese bibliográfica oriunda de pesquisa de doutoramento sobre a comunicação política na plataforma YouTube, esta comunicação propõe uma reflexão a respeito do que significa elaborar um ato responsável na pesquisa sobre o ciberespaço contemporâneo. O pensamento bakhtiniano aponta a necessidade de integrar o “mundo teórico” ao “mundo da vida” por meio da unicidade única do ato responsável, fornecendo princípios para a inter-relação entre teoria e vivência. O levantamento bibliográfico mostra que, contrariando as análises clássicas sobre o ciberespaço, elaboradas na transição entre os Séculos XX e XXI, que propunham um olhar otimista ou neutro acerca do impacto da atividade digital no cotidiano, da distribuição do poder e dos conflitos gerados pelas disputas ideológicas em torno delas, as formulações teóricas críticas sobre a internet contemporânea apontam para a consolidação do processo de plataformização, pelo qual empresas monopolistas, as Big Techs, impõem à sociedade um modo de acesso ao conteúdo digital no qual o usuário se sujeita à datificação controlada por algoritmos, gerando-se um ambiente de crise no qual o indivíduo é destituído de atributos humanos essenciais e a vida social é regulada pela arquitetura das plataformas. Com isso, defendemos que a elaboração de um ato responsável na pesquisa sobre o tema passa pelo estabelecimento de princípios e metolodogias de geração e abordagem dos dados em que o pesquisador apareça não apenas como observador, mas como usuário das ferramentas. A fim de ilustrar nossa reflexão, apresentamos resultados parciais de revisão sistemática em andamento de pesquisas recentes vinculadas à teoria bakhtiniana que tomam como objeto de análise elementos ou processos próprios das tecnologias digitais, tecendo considerações sobre a maneira como os trabalhos analisados articulam os domínios da teoria e da vida na produção de conhecimento sobre o ciberespaço.

 

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Fontes kantianas da antropologia filosófica de Mikhail Bakhtin

 

Sheila Vieira de Camargo Grillo (USP/CNPq)

sheilagrillo@usp.br

 

Resumo: Investigar o modo de superação (equilíbrio entre crítica/transformação e manutenção) da filosofia transcendental kantiana pela filosofia do ato bakhtiniana, considerando a fortuna crítica de pesquisadores brasileiros e russos, é o objetivo deste artigo. A proposta se justifica pelo fato de a filosofia transcendental de Immanuel Kant ser uma das mais importantes fontes da “filosofia do ato” de Mikhail Bakhtin e, devido à complexidade da inter-relação entre as obras de ambos os autores, ainda restarem elementos a serem mais bem compreendidos. A metodologia de análise é o cotejo das obras dos dois filósofos a partir da delimitação das questões filosóficas centrais da obra do filósofo russo que respondem, polemizam, baseiam-se na crítica transcendental do filósofo alemão. Os resultados desse cotejo apontaram: 1) a primazia do sujeito ético ou moral tanto na filosofia transcendental kantiana quanto na filosofia do ato bakhtiniana; 2) a distinção entre sujeito empírico ou personalidade (pessoa, ser humano) na filosofia bakhtiniana e sujeito transcendental, gnosiológico ou teórico na filosofia kantiana; 3) ser estética bakhtiniana uma estética da criação verbal, que coloca o ser humano como o objeto central e aproxima o mundo da vida do da arte; e 4) que as reflexões sobre a linguagem em “Por uma filosofia do ato” aliam o conceito, a imagem e a entonação, envolvendo as capacidades humanas do entendimento, da imaginação (estas duas postuladas por I. Kant) e da valoração.