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Um desenho teórico-metodológico de “Marxismo e Filosofia da Linguagem”?

colaborou Simone Ribeiro Velosos

Publicado inicialmente em 1926 na revista Zvezda, “A palavra na vida e a palavra na poesia” compõe o conjunto de textos em que a autoria não se configura ponto pacífico. Tatiana Bubnova (2009) explicita o cenário das “calientes” controvérsias que compõem o espaço de interlocução compartilhado por pesquisadores bakhtinianos.  De todo modo, a leitura desse importante ensaio revela o fervilhar de pensamentos característicos do chamado Círculo de Bakhtin. 

Partindo da tradução realizada em francês e publicada em 1981 por Todorov, o texto traz o seguinte subtítulo: “Contribution à une poétique sociologique”, o que nos remete a uma abordagem sociológica/marxista da obra poética/literária, e estabelece embates teórico-metodológicos com duas outras perspectivas teóricas: a dos formalistas/estruturalistas e em relação ao subjetivismo individualista. Desse modo, dialoga com “Problemas do conteúdo, do material e da forma verbal na criação literária”( 1924), porém, de modo a delimitar os contornos metodológicos de uma ciência que considere os subentendidos como a “essência/alma de sentido” da palavra/discurso.  Daí considerar o enunciado concreto como um entimema.

Um  dos aspectos teóricos mais revolucionários desse texto configura-se na noção de “avaliação” vista sociologicamente como imanente ao signo ideológico, tornando-se, assim, em um DOGMA. O deslocamento da avaliação suscitaria a RELATIVIZAÇÃO do dogma e, portanto, a abertura para o nascimento de controvérsias, mais do que a aceitação do mesmo.

Referências

BUBNOVA, Tatiana Voloshinov: a palavra na vida e a palavra na poesia. In: BRAIT, Beth Bakhtin e o Círculo (Org.). Trad. Fernando Legón e Diana Araujo Pereira.São Paulo: Contexto, 2009. p. 31-48.

PONZIO, Augusto Il linguaggio come pratica sociale. Bari: Dedalo, 1980.

VOLOSHINOV, Valentin Le discours dans la vie et le discours dans la poésie. In: TODOROV, Tzvetan Mikhaïl Bakhtine: le principe dialogique suivi de écrits du cercle de bakhtine. Paris: Éditions du Seuil, 1981. p. 181-215. 

Gênero do Discurso

colaborou Inti Queiroz

É notório que o termo gênero do discurso não surgiu apenas no conhecido ensaio intitulado “Os gêneros do discurso”, escrito ao que se sabe no final dos anos 40 / início dos anos 50, mas publicado no Brasil nos adendos do livro coletânea “Estética da criação verbal” em 1992 (2010). Porém é neste ensaio que Mikhail Bakhtin se aprofunda  no conceito de gênero discursivo. É por ele que Bakhtin tem sido conhecido em diversos contextos e é neste ensaio que os pesquisadores tem se baseado para seus estudos relativos ao gênero.

Em nossa leitura de outro importante ensaio escrito por Bakhtin, “O problema do conteúdo do material e da forma” de 1924, pudemos perceber que importantes conceitos diretamente relacionados aos gêneros discursivos como forma composicional e esfera, por exemplo, são questões chave de reflexão. O termo gênero é citado neste ensaio, ainda que de forma discreta, o que nos possibilita dizer que a noção de gênero já existia nas reflexões do Círculo dos anos 20 de alguma maneira, contudo sabíamos desde o início da leitura que o aprofundamento no conceito teoricamente só foi proposto posteriormente. Ainda que o termo ‘gênero’ seja mencionado em alguns momentos do ensaio, buscamos observar pistas sobre uma possível reflexão mais aprofundada acerca do conceito de gênero e de fatores que pudessem nos levar a crer  que de fato já era uma preocupação do Círculo neste período inicial.

Um trecho que nos chamou a atenção por conta do dialogismo com o conceito apresentado no ensaio dos anos 50 aparece no meio de um parágrafo na página 46 da edição do ensaio dos ano 20, na edição de 2010. Esse trecho pode sustentar a tese de que realmente houve uma reflexão mais profunda sobre gêneros discursivos em algum momento dos estudos do Círculo nos anos 20.

“Um enunciado isolado e concreto sempre é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político, etc) ou no contexto de uma situação isolada privada; apenas nesses contextos o enunciado isolado é vivo e compreensível.” (2010, p.46)

A semelhança entre os trechos dos anos 20 e dos anos 50 parece clara. Ambos falam de enunciado isolado e concreto num dado contexto.  Em seu estudo “Estética da Criação Verbal”, Bakhtin opera com o conceito de esfera, sem explicitar uma definição clara para o conceito  e, por vezes, costuma chamar de “campos da atividade humana”. A cada esfera estão relacionados tipos específicos de enunciados, ou como Bakhtin preferiu chamar, gêneros, que são “cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados os quais denominamos os gêneros do discurso” (2003, p.262) Ao lermos a definição do conceito no ensaio dos anos 50 a semelhança da reflexão é ainda mais clara.

Cabe aqui a observação de que já no texto dos anos 20, Bakhtin parece observar certa diferença entre gêneros primários e secundários, presentes de forma aprofundada no texto dos anos 50. Sobre os gêneros primários, quando fala do “contexto de uma situação isolada privada” e nos remete ao que ele chama no texto posterior de “diálogos do cotidiano” e sobre os gêneros secundários, quando relaciona os tais enunciados isolados às possíveis esferas: científica, artística, política, etc.

Outro indício de que a reflexão sobre gênero já estava presente nos estudos do Círculo nos anos 20 aparece na mesma página do ensaio onde Bakhtin prolonga a reflexão sobre o enunciado, falando de sua importância  como “um momento da palavra linguisticamente determinada.”

Referências bibliográficas:

BAKHTIN, Mikhail. “Gêneros do discurso”. IN: Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003[1952-53]. p. 261-308.

_____. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In:______. Questões de estética e de literatura: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardine et al. São Paulo: UNESP, 1993 [1923-1924], p. 13-70.

Autor-Criador

colaborou Arlete Higashi

Ao buscarmos compreender a noção de auto-criador nos escritos bakhtinianos, especificamente em O autor e a personagem na atividade estética e O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária, observamos que o teórico russo almejava a construção de uma estética geral que permitisse observar a especificidade literária. Um dos conceitos basilares dessa estética é o de autor-criador. Segundo teórico russo, é preciso ter em mente a distinção entre autor-criador e autor-pessoa, pois enquanto o primeiro é um elemento da obra, o segundo é um elemento do acontecimento ético e social da vida.

Para Bakhtin, o autor-criador assume uma posição externa que permite dar forma e acabamento estético à personagem e ao mundo habitado por ela. A ideia de exterioridade é insistentemente retomada por Bakhtin nos textos mencionados acima:

[...] nesse excedente de visão e conhecimento do autor, sempre determinado e estável em relação a cada personagem, é que se encontram todos os elementos do acabamento do todo, quer das personagens, quer do acontecimento conjunto de suas vidas, isto é, do todo da obra. (BAKHTIN, 2003[1924-1927] p.11).

Esta exterioridade[1] (mas não o indiferentismo) permite que a atividade artística una, formule e conclua o acontecimento a partir do lado de fora (BAKHTIN, 2010 [1924], p. 36).

Segundo nos informa Faraco (2008), ele (autor-criador) “é entendido fundamentalmente como uma posição axiológica com o herói e seu mundo: ele olha com simpatia ou antipatia, distância ou proximidade, reverência ou crítica, gravidade ou deboche, aplauso ou sarcasmo, alegria ou amargura [...] (FARACO, 2008, p.38) e complementa, “o autor-criador é, assim, uma posição refratada e refratante. Refratada porque se trata de uma posição axiológica conforme recortada pelo viés valorativo do autor-pessoa; e refratante porque é a partir dela que se recorta e se reordena esteticamente os eventos da vida” (FARACO, 2008, p.39).

Até mesmo quando uma obra é autobiográfica, o autor deve “colocar-se à margem de si, vivenciar a si mesmo, olhar a si mesmo com os olhos do outro”, pois, com um só e único participante não pode haver acontecimento estético, a consciência absoluta, que não tem nada que lhe seja transgrediente, nada distanciado de si mesma e que a limite de fora, não pode ser transformada em consciência estética (BAKHTIN, 2003[1924-1927] p. 19-20).

No auto-informe confissão não há personagem nem autor por não haver uma posição para realizar a inter-relação dos dois, uma posição de distância axiológica, personagem e autor estão fundidos em um todo único (BAKHTIN, 2003[1924-1927] p. 135).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, M. O autor e a personagem na atividade estética. In: ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1920 -1924], p. 3-186.

_____. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In:______. Questões de estética e de literatura: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardine et al. São Paulo: UNESP, 1993 [1923-1924], p. 13-70.

FARACO, A. F. Autor e autoria. In: BRAIT, B.(ORG). Bakhtin conceitos chaves . São Paulo: Contexto, 2008.


[1] Em o Problema da forma, Bakhtin menciona que a diferença essencial entre a forma artística e a cognitiva é o fato de esta última não possui autor-criador. o autor-criador é um momento da forma artística.

Forma Arquitetônica

A importância da noção de arquitetônica em “O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária”

colaborou Simone Veloso

Produzido em 1924, esse ensaio, ao entabular diálogos com três outros textos – Arte e Responsabilidade (1919), Autor e Herói na Atividade Estética (só publicado em 1975) e Para uma Filosofia do Ato (primeira edição em russo só aparece na primeira metade da década de 1980), problematiza, acima de tudo, o projeto metodológico formalista de análise do material estético, de forma a considerá-lo incapaz de observar a obra de arte em sua constitutiva inter-relação com valores culturais, éticos, sócio-históricos.

Nesse sentido, a noção de arquitetônica apresenta-se como um dos principais elementos que emergem da polêmica instaurada contra pressupostos formalistas delimitados a uma abordagem materialista, em que afloram privilegiadamente enfoques analíticos de aspectos linguísticos e formais desvinculados da base axiológica responsável pela atribuição de um sentido concreto: o autor criador.

Contudo, é importante salientar que não se trata de lugar enunciativo apenas, mas da voz de um autor criador que porta valores culturais, éticos, morais e, desse modo, somente ele pode se responsabilizar, na singularidade do ato, pelo sentido esteticamente gerado. Tais valores viabilizarão o acabamento da obra, de forma que as partes estarão ligadas em função de um projeto/intencionalidade autoral.  Esse projeto constitui-se a arquitetônica da obra. Podemos dizer, grosseiramente, que se trata do planejamento maior de uma edificação, sem o qual as partes se fragilizariam sem a combinação de um todo, ou como em uma orquestra, em que o maestro com sua “singela” batuta comanda um todo arquitetônico de sentido em que os sons produzidos portam valores de diferentes ordens.

Para compreendermos a noção de arquitetônica vale considerar igualmente a análise que Bakhtin empreende do proema Razluka (Separação) de Pushkin, escrito em 1830. Tal análise, desenvolvida em Para uma filosofia do ato responsável, observa o quadro axiológico/ético delineado pela perspectiva do homem amado que vê a Itália como terra estrangeira, espaço em que comporta o corpo da mulher amada morta, ao passo que para ela se apresentaria como o chão de seus antepassados. Belíssimo!