Gênero do Discurso

colaborou Inti Queiroz

É notório que o termo gênero do discurso não surgiu apenas no conhecido ensaio intitulado “Os gêneros do discurso”, escrito ao que se sabe no final dos anos 40 / início dos anos 50, mas publicado no Brasil nos adendos do livro coletânea “Estética da criação verbal” em 1992 (2010). Porém é neste ensaio que Mikhail Bakhtin se aprofunda  no conceito de gênero discursivo. É por ele que Bakhtin tem sido conhecido em diversos contextos e é neste ensaio que os pesquisadores tem se baseado para seus estudos relativos ao gênero.

Em nossa leitura de outro importante ensaio escrito por Bakhtin, “O problema do conteúdo do material e da forma” de 1924, pudemos perceber que importantes conceitos diretamente relacionados aos gêneros discursivos como forma composicional e esfera, por exemplo, são questões chave de reflexão. O termo gênero é citado neste ensaio, ainda que de forma discreta, o que nos possibilita dizer que a noção de gênero já existia nas reflexões do Círculo dos anos 20 de alguma maneira, contudo sabíamos desde o início da leitura que o aprofundamento no conceito teoricamente só foi proposto posteriormente. Ainda que o termo ‘gênero’ seja mencionado em alguns momentos do ensaio, buscamos observar pistas sobre uma possível reflexão mais aprofundada acerca do conceito de gênero e de fatores que pudessem nos levar a crer  que de fato já era uma preocupação do Círculo neste período inicial.

Um trecho que nos chamou a atenção por conta do dialogismo com o conceito apresentado no ensaio dos anos 50 aparece no meio de um parágrafo na página 46 da edição do ensaio dos ano 20, na edição de 2010. Esse trecho pode sustentar a tese de que realmente houve uma reflexão mais profunda sobre gêneros discursivos em algum momento dos estudos do Círculo nos anos 20.

“Um enunciado isolado e concreto sempre é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político, etc) ou no contexto de uma situação isolada privada; apenas nesses contextos o enunciado isolado é vivo e compreensível.” (2010, p.46)

A semelhança entre os trechos dos anos 20 e dos anos 50 parece clara. Ambos falam de enunciado isolado e concreto num dado contexto.  Em seu estudo “Estética da Criação Verbal”, Bakhtin opera com o conceito de esfera, sem explicitar uma definição clara para o conceito  e, por vezes, costuma chamar de “campos da atividade humana”. A cada esfera estão relacionados tipos específicos de enunciados, ou como Bakhtin preferiu chamar, gêneros, que são “cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados os quais denominamos os gêneros do discurso” (2003, p.262) Ao lermos a definição do conceito no ensaio dos anos 50 a semelhança da reflexão é ainda mais clara.

Cabe aqui a observação de que já no texto dos anos 20, Bakhtin parece observar certa diferença entre gêneros primários e secundários, presentes de forma aprofundada no texto dos anos 50. Sobre os gêneros primários, quando fala do “contexto de uma situação isolada privada” e nos remete ao que ele chama no texto posterior de “diálogos do cotidiano” e sobre os gêneros secundários, quando relaciona os tais enunciados isolados às possíveis esferas: científica, artística, política, etc.

Outro indício de que a reflexão sobre gênero já estava presente nos estudos do Círculo nos anos 20 aparece na mesma página do ensaio onde Bakhtin prolonga a reflexão sobre o enunciado, falando de sua importância  como “um momento da palavra linguisticamente determinada.”

Referências bibliográficas:

BAKHTIN, Mikhail. “Gêneros do discurso”. IN: Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003[1952-53]. p. 261-308.

_____. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In:______. Questões de estética e de literatura: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardine et al. São Paulo: UNESP, 1993 [1923-1924], p. 13-70.